segunda-feira, 5 de setembro de 2011

texto curatorial: COM PÉ COM CABEÇA/ GALERIA MYRALDA EM SETE LAGOAS


COM PÉ COM CABEÇA

O que é real ou irreal em um sentimento de aflição, perante algum trauma ocorrido ou em percurso? Essa mesma aflição vista por um ângulo, não agonizante, abre caminho para a ‘estética da dor’ - ou de agradecimento - registrada nas obras dos artistas que compõem o Coletivo A4. Tal relação tem seus momentos de estranhamento e reconciliação, marcados por uma tênue linha entre o sagrado e o profano. Diria que vão além da ‘filologia’, alcançando um sensível patamar fraterno com os que sofrem ou sofreram.

O Coletivo A4 impunemente arremessa ao mundo contemporâneo da arte algo que incita a posteridade dialógica em torno do tema. Provoca uma síntese, para que a razão se desdobre e rebele. Esse diálogo interpenetra a forma; não somente interdisciplinar, mas também transdisciplinar, naquilo que ela tem de complexo. Recordemos inumeráveis filólogos que debruçaram sobre análises civilizacionais, em busca de  textos ou conhecimentos culturais, que fornecessem respostas aos seus questionamentos, em torno da fé. Dentre essas indagações, algumas foram motivadas pelas inscrições contidas nas tábuas votivas e, logicamente, os Ex-Votos  como tradução declarada  de graça alcançada.

Dentro do conjunto de obras que compõem a exposição, “Com Pé com Cabeça”; torna-se necessário reconstruir esses significados. Nesse sentido, é que as formas de produção e de apropriação do enredo dadivoso do Ex-Voto ganha uma nova ‘roupagem’. O processo ritualístico naturaliza as práticas que o originaram. A “transcriação” desse Coletivo perpassa a aflição e remonta a uma comunidade criativa, muito além da dor e do sofrimento, em busca de algo que os eleve pela fronteira da comunhão sincrética, inspirando um xeque em Saussure, quando ele afirma que a linguagem falada deveria ter primazia. Aqui a linguagem silenciosa - icônica - se contrapõe ao ruído da fala, dando lugar a um expressivo jogo de comunicação virtual, entre a alma e Deus.


Dmtrius Cotta
Curadoria

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